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LAVAGEM CEREBRAL
Joel Ribeiro do Prado
A
lavagem cerebral é um processo cruel de aniquilamento do ser. Ele é lento
como uma "faxina" bem feita. Tem de ser assim para que não reste,
em nenhum cantinho do cérebro, sequer uma migalha de consciência capaz de
crescer e se multiplicar. O paciente da lavagem é sempre alguém desestruturado,
com problemas existenciais, os quais não sabe como resolver. Essa circunstância
o torna presa fácil de qualquer oferta de apoio, sem que se preocupe em avaliá-la,
ou sem que possa avaliá-la, devido à sua própria condição psicológica. De
início, tudo é feito para produzir uma sensação de bem estar no paciente,
de modo a que ele não resista à vontade de estar naquele ambiente "sagrado"
o maior tempo que possa. MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM
Leituras, depoimentos, testemunhos, palestras, seminários... Gradativamente,
o paciente é levado a crer num crescimento seu. Como é previsível e quase
sempre inevitável, essa alienação, à medida em vai consumindo o tempo, impede
que o paciente realize bem as tarefas da sua vida real, o que traz o agravamento
das dificuldades materiais. Contra a possibilidade de que o paciente, premido
por suas perdas crescentes, desgarre-se do rebanho, cultiva-se nele a crença
de que essas perdas são resgates, são purificadoras.
Quem tiver a chance de acompanhar esse processo de destruição da personalidade
e do mais a que ela seja indispensável - família, trabalho, sucesso na vida
- irá constatar, sempre, que ocorre uma incrível mudança de ótica no paciente.
Ele passa a não reconhecer a necessidade de ser objetivo em suas ações de
atendimento às demandas naturais que a vida apresenta. Nada do que ele ainda
faça como pessoa escapa daquele "tratamento" espiritual do qual
ele se tornou um grande discípulo, um praticante incondicional, um "sacerdote",
um divulgador incansável. Como é obvio, os problemas resolvidos, seja pelo
tempo, seja pelo auxilio de outros, jamais escaparão de um registro como provas
da "maravilhosa" prática dele, paciente.LP
PPPPPPPPPPPPPPPPPPPP
Desconectadas da sua individualidade, as infelizes vítimas desses processos de
escravização da alma permanecem nesse estado de inconsciência, apoiando-se umas
às outras no convívio diário, dentro de um clima ufanista, onde cada um conta
para os demais as suas "conquistas", falando das "provas" que
teve. Nunca eles consideram que outros fatores, alheios à sua prática
religiosa, poderiam ter atuado na mudança de uma situação. Tudo o que possa
levar a um questionamento da sua prática é rejeitado.
Eles, os praticantes ou pacientes, estufados por esse vento de tantas
"glórias" alcançadas, sentem-se como componentes de uma equipe
agraciada por Deus, que lhes permitiu descobrir tantas verdades -as mesmas que,
ainda na infância, a gente já ouve falar mesmo em casa, nas conversas da família.
Eles se sentem como obreiros de um projeto importante de salvamento do planeta,
no qual toda a família deve se engajar. Como quase sempre são pessoas que nunca
participaram de projeto real nenhum, sentem-se pela primeira vez importantes.
Estes são os que vestem a vida do avesso e nunca se apercebem da sua falta de
estética...
Tudo isto ocorre repetidamente por obra e graça da carona que a liberdade de
pregação pegou na liberdade de culto. Os ministros do Diabo, travestidos de
apóstolos de Deus, andam pela Terra praticando o crime da falsidade ideológica.
E o fazem impunemente, de modo perverso, coercivo, intimidatório, prenunciando
a ruína absoluta daquele que não se converter e não repassar para os cofres da
pérfida máfia até mesmo o muito pouco que tenha. Tal crime de extorsão e de
apropriação indébita da pessoa continuará sendo praticado sem nenhum
impedimento legal enquanto os nossos distraídos legisladores não conseguirem
ver a diferença entre liberdade de culto e liberdade de pregação.
Joel Ribeiro do Prado
Nota: Este e outros trabalhos do autor podem ser encontrados no
site