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Joel Ribeiro do Prado

COMBATE DESORGANIZADO AO CRIME ORGANIZADO

O crime organizado sugere, já por sê-lo, que o combate a ele se faça com igual ou maior organização.
A partir desta premissa, comparemos o modo de agir da bandidagem com aquele que tem sido o das
instituições de combate ao crime, de repressão, de sentenciamento e de detenção.
Há vários anos, houve um caso muito divulgado pela imprensa e que repercutiu enormemente em todo o
País, sobretudo por atingir de modo enodoante o ambiente político nacional. Resumido ao quanto aqui
interessa para ser analisado, o que aconteceu foi ter um então ministro da Justiça sido pego na prática de
contrabando. E pior: o contrabando era "exportabando", algo que não admite hipóteses atenuantes mais
românticas, como as muitas vezes levantadas quando o ato de contrabandear se dá de fora para dentro.
Como a definição mais popular de contrabandista é aquela originada da existência dos sacoleiros que
transitam na Ponte da Amizade, trazendo bugigangas do Paraguai, o ministro em questão teria uma mancha
mais suave e até removível da sua honra, se o tivessem pego trazendo do exterior, na sua sacola e de forma
ilícita, qualquer coisa e até mesmo aquelas pedras preciosas escondidas na sua bagagem de ida. Não que o
nosso "denodado ministro" tenha ficado com as suas virtudes, se as tinha, para sempre turvadas pela conduta
indigna, mesmo porque, na época, essas coisas nem chegavam muito ao conhecimento da maior parte da
população e, sendo essa maior parte aquela que decide a sorte de alguém nas urnas, pôde a insigne figura
(insigne admite conotações antagônicas)prosseguir sufragado nos pleitos de que veio a participar. Nos círculos
em que o deslize ministerial era comentado, a ingenuidade ficava evidente, pois se dizia que o ministro houvera contrabandeado ou tentado contrabandear pedras preciosas. Muito poucos percebiam a possibilidade enorme
de um contrabandista ter se tornado, a serviço da sua impunidade, político.
A escalada do crime no Brasil já venceu a fase da tomada das instituições oficiais. O comando do crime de há
muito detém por aqui aquela dupla personalidade que lhe interessava alcançar. Uma, para mostrar-se socialmente; outra, para agir á socapa, nas sombras, de modo incógnito, cruel, arquitetando a ruína da sociedade e da nação. Imaginar que se possa resolver este grande problema que temos, simplesmente prendendo a bandidagem do
fronte, aqueles biltres das ações de rua, que não passam de office boys no organograma das organizações criminosas, é de uma ingenuidade que ultrapassa os níveis mais agudos da burrice, alcançando o da falência
mental, para não dizer o da morte cerebral.
As empresas do crime só poderão ser desmontadas de dentro para fora, assim como o Estado o tem sido pelos
criminosos-em-chefe. Será que, por não haverem as nossa escolas regulares, a nossa comunicação de massa e
a nossa sociedade produzido suficientemente, sobretudo nas últimas duas décadas, capacitados para as tarefas
que requerem inteligência, hombridade e patriotismo, não temos qualquer chance de curar o Brasil?
Se assim for, restar-nos-ão como esperança os próprios pupilos das escolas do crime, que alguns hão de haver
regenerados e ansiosos por redenção. Tais poderão, quiçá, ensinar às nossas autoridades constituídas como se
toma de assalto e se desmonta de dentro para fora algo que se chama OR-GA-NI-ZA-DO
E.T.: No caso específico desse bandido-batata-quente, que ninguém quer segurar, vemos, com o passar dos
dias, a que ponto chega o despreparo nosso para lidar com o crime. As pseudo estratégias oficiais são o tempo
inteiro comunicadas pela tv e pelo rádio a toda a população, a título de se garantirem coisas como a liberdade de imprensa, a de expressão e, enfim, a própria democracia. Mas tudo isto que o regime político democrático garante tem de estar pautado pela inteligência, pelo bom senso, pela responsabilidade, pela acuidade. O uso imoderado
de qualquer coisa, inclusive o da liberdade, costuma produzir efeitos opostos aos pretendidos. Mas os que
confundem com censura qualquer coisa que estabeleça limites devem levar o seu entendimento de democracia e
de liberdade de expressão um pouco mais além, trazendo os líderes do crime à tv, ao rádio e aos jornais, para que também nos contem os seus novos planos de ação. Aí o jogo vai ficar mais igual.