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julho 11, 1997
Ilmo. Sr.
Doutor Eduardo Matarazzo Suplicy
Exmo. Senador da República Federativa do Brasil
Ref.: CASA-DE-ESPANTOS BRASIL.
Prezado Senador
Atento
aos acontecimentos, sobretudo àqueles de maior relevância, sei do trabalho
denodado que V.Exa. vem
realizando no Senado e cumprimento-o por esse denodo que, aliás, sempre marcou
a sua atuação política.
De outra feita, Senador, após lhe levar, por escrito, o meu sentimento de
cidadão, diante dos fatos que fizeram
do governo Collor um momento histórico de grandes perdas e de enorme frustração
para nós todos, tive a
surpresa e a honra de receber uma atenciosa resposta de V.Exa., que embora,
como sempre, tendo de multiplicar
o seu tempo diante de tantas e tantas questões que se lhe apresentam, nem
por isso deixou-me sem o seu
comentário e o seu estímulo, pelo que apresento-lhe o meu agradecimento.
Senador, grandes
temas continuam polarizando a atenção dos
brasileiros.Sem a distração que nos afastava da
reflexão - aquele
produção de dinheiro artificial, a arte da especulação - parece que, para
atenuar um pouco essa monotonia,
encontramos um outro modo de viver emocionantemente: sentados nas cadeirinhas
teleféricas em que a
televisão transformou os assentos das nossas salas de estar,
penetramos nas trevas
dessa interminável
“casa-de-espantos” que é o Brasil
- não só o Brasil; porém, também e
lamentavelmente o Brasil- e vamos
testando o nosso coração diante das figuras macabras que se levantam à nossa
aproximação: dilapidadores do
dinheiro público, empresários de Deus, fraudadores da nossa esperança, policiais-bandidos,
incendiários de
mendigos, corruptores de crianças, pregadores
do desvirtuamento, traficantes
da impunidade,
etc.; toda a
coleção de monstros e monstruosidades que a ficção deixou que se evadissem
para a realidade cotidiana, tornando
esta insuperável por aquela.
Se
não há prazer em termos diante de nós esse quadro, mas já há um vício em tê-lo,
pois é esta a cena dominante -
e que se amplia sobre o que houver de positivo, de correto, de promissor,
até porque esse avanço é sustentado
pelo modo como o poder da comunicação de massa
é exercido, através de uma permanente glamurização do
lixo de todas as procedências, e a cujo contato produz-se o apodrecimento
de coisas fundamentais como a fantasia
infantil, a energia da juventude e
a esperança dos maduros - se é, Senador Suplicy, esta a cena dominante, será
preciso que outras mãos, capazes de criar e de empreender sobre os valores
verdadeiros, em todas as áreas de
atividade, inclusive na da comunicação, unam-se, sob a égide de um programa governamental
inflexível, que vise à
descontaminação do ambiente sócio-cultural do Brasil.
Antes, na era do
seletor mecânico de canais, tínhamos não mais do que cinco ou seis opções
de alguma
informação e muito entretenimento, que consultávamos delicadamente, para não
estragar o seletor; hoje, com
o advento da TV a cabo, varremos o Globo através de um agilíssimo controle
remoto e, em instantes, o que fica
estragado é o nosso ânimo. Nessas voltas ao mundo, podemos, aqui e ali, vislumbrar
pequenas trincheiras
de resistência à imbecilização; tempos relativamente
curtos a serviço de
uma grande vontade de uns poucos,
que teimam em tratar
a vida com carinho, os males com
compaixão e a virtude com entusiasmada gratidão.
Aqui, no
Brasil, que falta nos fazem
criaturas como Manuel Durães e o seu
cast de intérpretes
fantásticos, que foi capaz de dar ao rádio de quatro décadas atrás uma expressão
teatral de tal refinamento, que
fazia da Record uma unanimidade onde alcançassem as suas ondas nas tardes
de sábado e de domingo, a
partir das treze horas, pelo poder polarizador de audiência que a radiofonização
classe A dos romances mais
célebres demonstrou ter. Que falta nos fazem e que saudade nos deixaram artistas
como Arrelia! de uma
cândida genialidade humorística; tão verdadeiro em sua grandeza que, se não
fôssemos tão tolos e tão
ingratos, pereniza-la-íamos num canto bem aconchegante do nosso coração e
- por quê não?- com ao menos
um busto numa praça que se poderia chamar Do
Picadeiro. Que pena que se foram sem quase deixar sucessores!
Gente singela e elegante, tanto no modo como na fala, como os apresentadores
Homero Silva - já falecido - do Clube
Papai Noel, e J. Silvestre (este, pelo que sei, atuando nos Estados Unidos)
de O céu é o limite e outros
programas em que esbanjava a sua apuradíssima classe. Da mesma qualidade nos
restaram, mas com espaços de
atuação exíguos para a sua grandeza, exceções raríssimas como Salomão
Ésper, Moraes Sarmento e Rolando Boldrin.
Os
citados são expoentes de um tempo soterrado sob os escombros da nossa dignidade
coletiva, mas não são os
únicos. E, se tivemos tantos e tão imensos obreiros da comunicação, da cultura
e das artes, qual mágica foi capaz
de fazê-los desaparecer e aos seus estilos? trazendo para os lugares deixados
vagos um tal gênero humano que subverteu
o gosto popular pela constante chulice do que produzem sob o rótulo de comunicação
e de entretenimento. É preciso
atentar para o detalhe de que o que chega onde há uma cultura sólida estabelecida,
se for bom, é percebido como tal e
agregado a essa cultura, enriquecendo-a, mas, se é mau, atua apenas como um
modismo que é abortado gradualmente,
pois influi apenas sobre os que daquele
lugar não tiverem
ainda uma personalidade
já definida pelos padrões locais.
Quando, porém,o que é mau se apresenta num
ambiente de subdesenvolvimento de toda espécie, como é o nosso,onde
nada de maior robustez e de natureza oposta se lhe é contraposto, aí a coisa passa a modelar
mais profundamente a
sociedade; incorpora-se à pobre cultura ali
estabelecida, empobrecendo-a ainda mais.
Eu
já estava com esta carta pronta quando, ontem à noite, interessei-me em assistir
ao Você decide, da Globo.
Tratava-se de uma situação imaginada a partir desse caso dos precatórios,
na qual a uma secretária davam-se três
alternativas: a de pedir demissão e calar-se, não denunciando o patrão envolvido
na roubalheira; pedir demissão e
denunciá-lo; compor-se com ele e participar ativamente do esquema. O resultado
da consulta à opinião dos telespectadores
mostra uma realidade
estarrecedora: a sociedade
precisa de um tratamento
de choque para que recupere a sua dignidade,
pois optou maciçamente pela terceira opção. Isto a mim parece
um dado muito significativo do qual podem-se extrair
alguns raciocínios:
1.
A terceira opção, oferecida assim,
antes de que a CPI conclua o seu trabalho e a Justiça demonstre, como
dela se tem reclamado, empenho em fazer a sua parte, não seria essa terceira
opção uma imprudência? que se poderia
evitar já por isso e também levando-se em conta os limites culturais a que
me referi acima, dentro dos quais o que é ruim faz
escola e, mais do que isso, faz a escola mais eficiente que temos por aqui,
pois tem a seu dispor os recursos técnicos e
cênicos que não se emprestam ao que haja de positivo, bom e educativo;
2.
Diante de um resultado dessa natureza, o promotor da pesquisa e do programa, se teve
a convicção
prévia e que se
tratava de um bom tema para polarizar audiência, se teve discernimento para
isto, estará eticamente
obrigado a aprofundar
essa investigação, mas já aí a serviço
de uma recuperação dos valores positivos que perderam de ponta-a-ponta na
contagem dos votos telefônicos;
3.
A reforma do judiciário, sem a reforma da escola, sem a reforma da família
e sem a reforma da filosofia da comunicação de
massa, vai
dar no quê?
A
Globo, se foi infeliz na escolha da oportunidade para deflagrar a terceira
opção, num momento de tamanha indução negativa
a que estamos todos submetidos, mostrou, mesmo feitos os descontos aconselháveis
uma vez reconhecida a indução, que
tendemos a um comportamento coletivo que vai multiplicar muitas vezes o volume
de processos a serem resolvidos na
Justiça.
A Lei de Gerson, admitida assim,
sem rebuços, pela sociedade, como a que ela aprova para si num Você decide, representa
que a nossa Constituição vem sendo picada e jogada no lixo. Sim, porque o
quê, daquilo que nela se define como direito,
sobreviveria entre nós que elegemos como princípio fundamental
da nossa vida o de levar vantagem em tudo?
Reputo
este resultado do Você decide digno
de uma reflexão extremamente séria por parte dos que se conservam lúcidos
e
sobretudo dos que, além de lúcidos, estão com algum poder nas mãos que lhes
enseje trabalhar contra essa situação,
estimular o surgimento de uma vontade política para que esse combate aconteça
e seja eficaz. Não vejo como realizá-lo
para valer, sem o concurso dos veículos de comunicação de massa, já então
direcionados para tanto.
Senador Suplicy,a TV SENADO apresenta, freqüentemente, um anúncio da
biblioteca dessa Casa, destacando a
qualidade
e a quantidade das obras nela existentes, como
a dizer da importância que aí se dá ao patrimônio cultural.
Por ter ouvido e visto tal anúncio repetidas vezes,
acabei por relacioná-lo com esta visão crítica que acabo de expor a vossa
excelência. Tive, então, a idéia de
que, havendo no Senado alguém com a sua sensibilidade e o seu idealismo, este
bem que
poderia ser mais do que um gentil leitor deste desabafo,
mas quem sabe o próprio
aliado que, pela lucidez, pelo carinho
com que abraça
as grandes causas e pelos recursos que o cargo público lhe dá, viabilizasse
uma ação sofreadora e
reversiva do quadro atual.
Se tanto lhe
for possível, Senador, eu lhe
sugeriria que, por exemplo,
procurasse constatar
a situação em
que se encontram a Escola de Belas Artes e a Biblioteca Nacional da Universidade Federal
do Rio de Janeiro.
Depois de havê-lo feito, o senhor terá uma boa sugestão de por onde se pode
começar um trabalho de soerguimento cultural do
Brasil. Este soerguimento tem de passar pela dignificação de Casas da cultura
como o sãos tais estabelecimentos, hoje
instalados em ambientes deteriorados, sem recursos materiais e humanos, a
despeito da abnegação dos que ali operam;
tem de passar por uma reforma dos currículos escolares, desde o pré até
o segundo grau, amoldando-os
à necessidade
de dar
mais cedo uma
consciência ao indivíduo e referências de fato úteis à sua correta inserção
no planeta, na família
e na sociedade. A escola tem de se definir segundo as características do País e
não continuar sendo uma fábrica de
diplomas que representam que o diplomado sabe o suficiente daquilo que ele
provavelmente nunca vai usar. Eu mesmo,
que nunca pensei em atuar em nenhum campo onde o teorema de Varignon e a extração
de raiz quadrada e cúbica
fossem necessários, quase fui reprovado duas vezes por não saber essas coisas
importantíssimas na vida. Outros
foram
reprovados e alijados desde cedo por não saberem bem os
verbos to be, to have ou ètre. Que falta de compreensão! a
daqueles que decidiram como a escola deveria ser e tem sido...
Senador, se eu puder ser útil de algum modo dentro desses
propósitos ou de outros que se relacionem com a
construção
de um
Brasil mais positivamente brasileiro, conte comigo. E obrigado pela sua
sempre muito honrosa atenção.
Cordialmente,